Telégrafo e fonógrafo: metáforas modernas da fragmentação em António Nobre e Camilo Pessanha / Telegraph and Phonograph: Modern Metaphors of Fragmentation in António Nobre and Camilo Pessanha

Bruno Anselmi Matangrano

Resumo


Resumo: A partir da obra Os meios de comunicação como extensões do homem (1964), de Marshall McLuhan, o presente artigo pretende demonstrar como a noção de fragmentação da informação suscitada pelas inovações tecnológicas do século XIX – particularmente, pelo advento do fonógrafo e do telégrafo – se relaciona com as mudanças no comportamento humano, sobretudo no que diz respeito à própria percepção de si, e como esta nova percepção se manifesta nas novas formas artísticas oitocentistas que marcam o início da Modernidade, em especial, no simbolismo e no impressionismo. Em seguida, para demonstrar esta teoria, são analisados dois poemas simbolistas: o soneto 12, de António Nobre, centrado na imagem do telégrafo, e “Fonógrafo”, de Camilo Pessanha, através dos quais se espera mostrar como estas duas invenções modernas podem ser lidas como síntese metafórica da fragmentação do sujeito poético, manifesta por imagens, sintaxe e ritmo igualmente fragmentados, resultantes das mudanças de paradigmas artísticos, suscitados, por sua vez, pela mudança da percepção provocada pelas inovações tecnológicas.

Palavras-chave: modernidade; fragmentação do sujeito; arte e tecnologia; simbolismo; fragmentação da percepção.

Abstract: Based on Marshall McLuhan’s Os meios de comunicação como extensões do homem (Understanding media: the extensions of man), this paper aims to discuss how 19th century technological innovation gave rise to the concept of information fragmentation – mainly with the appearance of both phonograph and telegraph – and how this notion relates to changes in human behaviour, mostly in that which concerns self-perception. Such understanding arises in new artistic ways in the 19th century, thus marking the beginning of Modernity, chiefly in Symbolism and Impressionism. Furthermore, in order to prove this theory, two Symbolist poems are analysed: António Nobre’s sonnet 12, focused on telegraph imagery, and Camilo Pessanha’s “Fonógrafo” (“Phonograph”). By analysing both texts we may infer that these technological images might be read as metaphorical synthesis of the split lyrical self, revealed by equally fragmented images, syntax, and rhythm, which are the result of changes in artistic paradigms, bestirred by perception changes brought about by technological innovation.

Keywords: modernity; fragmentation of the self; art and technology; symbolism; fragmentation of perception.


Palavras-chave


modernity; fragmentation of the self; art and technology; symbolism; fragmentation of perception; modernidade; fragmentação do sujeito; arte e tecnologia; simbolismo; fragmentação da percepção.

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DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2317-2096.26.3.273-291

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