Representando a resistência negra no Brasil: originalidade e limites de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves / Representing Black Resistance in Brazil: Originality and Limits of Um Defeito de Cor, by Ana Maria Gonçalves

Gabriel Estides Delgado

Resumo


Resumo: Com uma poética calcada no transplante cultural africano, Ana Maria Gonçalves leva a cabo, em Um defeito de cor, a tarefa titânica de recontagem da resistência negra no país a partir de um ponto de vista feminino e negro. No relato de uma narradora octogenária, ex-escrava de nação jeje, o fôlego monumental do romance perfaz aprofundada vivência de culturas originárias, incorporando léxicos de etnias traficadas e ritualísticas totêmicas, em tentativa de representação da importância de tal legado para a integração negra no Brasil. Sustentamos que a originalidade daí desprendida é capaz de contraditar um dos marcos da sociologia crítica brasileira: a tese A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes. Essa complementação fundamental a historiografias consagradas sobre as populações afro-brasileiras depende das possibilidades do registro ficcional, as quais, no entanto, ficam obstadas por escolhas formais conservadoras, que limitam, sem anular, a potência literária da obra.

Palavras-chave: Um defeito de cor; Ana Maria Gonçalves; literatura afro-brasileira contemporânea; resistência cultural; representação.

Abstract: With a poetics based on African cultural transplant, Ana Maria Gonçalves carries out in Um defeito de cor the titanic task of recounting Brazilian black resistance from a feminine and black point of view. In the report of a former octogenarian Jeje nation slave, the monumental breath of the novel fulfills a thorough experience of native cultures, incorporating lexicons of trafficked ethnic groups and totemic rituals, in an attempt to represent the importance of such a legacy for black integration in Brazil. The originality that emerges therefrom is capable of contradicting one of the Brazilian critical sociology milestones, the thesis A integração do negro na sociedade de classes, by Florestan Fernandes. This fundamental complementation to consecrated historiographies on Afro-Brazilian populations depends on the possibilities of the fictional record, which, however, are obstructed by conservative formal choices that limit, without annulling it, the literary power of the work.

Keywords: Um defeito de cor; Ana Maria Gonçalves; Afro-Brazilian contemporary literature; cultural resistance; representation.


Palavras-chave


Um defeito de cor; Ana Maria Gonçalves; literatura afro-brasileira contemporânea; resistência cultural; representação; Afro-Brazilian contemporary literature; cultural resistance; representation.

Texto completo:

PDF

Referências


ALVES, Antônio de Castro. O navio negreiro. In:_____. Os escravos. São Paulo: L&PM, 1997. p. 92-101.

AZEVEDO, Elciene. Orfeu de carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas: Unicamp, 1999 apud LIMA, Dulcilei da Conceição. Desvendando Luíza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. 2011. 161 f. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011. Disponível em: http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/1821/1/Dulcilei%20da%20Conceicao%20Lima.pdf. Acesso em: 12 jun. 2018.

CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

DALCASTAGNÈ, Regina. Um mapa de ausências. In: ______. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Vinhedo: Editora Horizonte; Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2012. p. 147-196.

DUARTE, Eduardo de Assis. Maria Firmina dos Reis e os primórdios da ficção afro-brasileira. In: REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Florianópolis: Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2004. p. 265-281.

DUARTE, Eduardo de Assis. Na cartografia do romance afro-brasileiro, Um

efeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. In: TORNQUIST Carmen Susana. et al. (Org.). Leituras da resistência: corpo, violência, poder. Florianópolis: Mulheres, 2009. p. 325-348.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Globo, 2008. v. 2: No limiar de uma nova era.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. 5. ed. São Paulo: Globo, 2008. v. 1: O legado da “raça branca”.

FERNANDES, Florestan. A sociologia numa era de revolução social. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

FERREIRA, Ligia Fonseca. Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça. Teresa: Revista de literatura brasileira, São Paulo, n. 8-9, dez. 2008. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/teresa/article/view/116741/114299. Acesso em: 12. jun. 2018.

FERRETTI, Sérgio. Beija-flor e a Casa das Minas. Comissão Maranhense de Folclore: Boletim On-line, São Luís, n. 18, jan. 2001. Disponível em:

http://www.cmfolclore.ufma.br/arquivos/789439a580ff99114aabae36 63f4971e.pdf. Acesso em: 12 jun. 2018.

FERRETTI, Sérgio. Querebentã de Zomadônu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão. 3. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2009.

FERRETTI, Sérgio. Repensando o sincretismo: estudo sobre a Casa das Minas. Prefácio de Reginaldo Prandi. São Paulo: Edusp; São Luís: Fapema, 1995.

GAMA, Luiz. Carta a Lúcio de Mendonça: São Paulo, 25 de julho de 1880. In: FERREIRA, Ligia Fonseca. Com a palavra Luiz Gama: poemas, artigos, cartas, máximas. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2011, p. 199-204 apud LIMA, Dulcilei da Conceição. Desvendando Luíza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. 2011. 161 f. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011. Disponível em:

http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/1821/1/Dulcilei%20 da%20Conceicao%20Lima.pdf. Acesso em: 12 jun. 2018.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. 11. ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.

IANNI, Octávio. As metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil Meridional. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1962.

LIMA, Dulcilei da Conceição. Desvendando Luíza Mahin: um mito libertário no cerne do feminismo negro. 2011. 161 f. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011. Disponível em: http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/1821/1/Dulcilei%20da%20Conceicao%20Lima.pdf. Acesso em: 12 jun. 2018.

LINS, Paulo. Cidade de Deus. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

LUÍSA Mahin. Fundação Cultura Palmares, Brasília, [2016?]. Disponível em: http://www.palmares.gov.br/?p=26662. Acesso em: 12 jun. 2018.

OGUNYEMI, Chikwenye Okonjo. Africa Wo/Man Palava: The Nigerian Novel by Women. Chicago: The University of Chicago Press, 1996.

REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. Florianópolis: Mulheres; Belo Horizonte: PUC Minas, 2004.

SILVA, Fabiana Carneiro. Maternidade negra em Um defeito de cor: história, corpo e nacionalismo como questões literárias. 2017. 209 f. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2017. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-28032018-

/pt-br.php. Acesso em: 14 jun. 2018.

VERGER, Pierre. Uma rainha africana mãe de santo em São Luís. Revista USP, São Paulo, n. 6, jun./ago. 1990, p. 151-158. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/35735/38451. Acesso em: 12 jun. 2018.

WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Simmel. 2. ed. São Paulo: Ed. 34, 2006.




DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2317-2096.28.4.65-85

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2018 Gabriel Estides Delgado

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.

Aletria: Revista de Estudos de Literatura
ISSN 1679-3749 (impressa) / ISSN 2317-2096 (eletrônica)

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.