Letras do cárcere: reinvenção da memória em relatos de/sobre detentos

Maria Aparecida Silva Ribeiro

Resumo


Resumo: No contexto da emergência de narrativas literárias brasileiras que tangenciam a crônica policial, observada no final dos anos de 1990, o romance Estação Carandiru, de Drauzio Varella, tornou- se o patrono de um filão editorial conhecido à época como letras do cárcere. Os autores que deste grupo participam, estreantes na literatura, em sua maioria, produziram narrativas que ilustram, por afinidade e por contraste, as relações entre memória e história, conforme formuladas pelo estudo de Walter Benjamin sobre o narrador. A transformação das vivências do confinamento em experiência compartilhada fora de seus muros (terminologia de Benjamin), a partir de operadores narrativos, pode ser verificada nas opções textuais realizadas. No decurso, são pontuadas certas dissensões entre os relatos dos detentos, entre si, e dos detentos em comparação ao visitante que se faz narrador (médico, repórter, pesquisador). A migração intermitente de histórias do plano documental/ jornalístico ao memorialístico/ confessional é a base sobre a qual se assenta o processo de reinvenção da realidade, no qual se considera, segundo o método benjaminiano, a língua como meio de exploração do passado.

Palavras-chave: memória; narração; sistema prisional.

Abstract: In the context of the emergence of Brazilian literary narratives that come near crime chronicles, observed in late 1990s, Drauzio Varella’s novel Estação Carandiru became the patron of an editorial lode known at the time as letters from prison. The authors who participate in this group, literary rookies, mostly produced narratives that illustrate the relation between memory and history, as formulated by W. Benjamin in The narrator. The transformation of experiences of confinement into shared experience outside their walls (to employ Benjamin’s terminology), by means of narrative operators, can be found in the textual choices made. In the course, certain dissensions between the tales of the detainees among themselves and of the prisoners in comparison to the visitor who acts as narrator (doctor, reporter and researcher) are punctuated. The intermittent migration of histories from the documentary/ journalistic to the memorialistic/ confessional plan is the foundation on which rests the reinvention of reality, in which language is considered, according to the Benjaminian method, a way of exploring the past.

Keywords: memory; narration; prison system.


Palavras-chave


memória; narração; sistema prisional; memory; narration; prison system.

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Referências


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DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2317-2096.23.1.161-172

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