Da terra e do céu, a poesia que vem dos bichos: Manoel de Barros e suas Memórias inventadas / From the earth and the sky, the poetry that comes from beasts: Manoel de Barros’s Memórias Inventadas

Fernanda Coutinho

Resumo


Resumo: Em Memórias inventadas, A infância (2003), A segunda infância (2006) e A terceira infância (2008), Manoel de Barros (Cuiabá, MT, 1916) traz para a escrita memorialista aspectos formais inusitados e apresenta uma fauna sui generis, composta por lesmas, lacraias, sapos, entre outros animais que habitualmente fogem a uma valoração positiva do ponto de vista estético. A exceção ficaria por conta dos pássaros, que se furtam ao padrão de apreciação dos bichos já referidos. O presente trabalho busca, de início, evidenciar a poesia do escritor como espaço de inclusão do que muitas vezes é tomado como repulsivo, evidenciando o sentido de metamorfose da arte, enquanto terreno da outridade; em segundo lugar, interessa ver como a figura do animal, em sua atuação no mundo natural, funciona como suporte para a dicção metanarrativa que impregna todo o relato, sendo, portanto, de suma importância, uma vez que as Memórias situam-se no domínio da poeisis.

Palavras-chave: animal; infância; memória.

Résumé: Dans Memórias inventadas, A infância (2003), A segunda infância et A terceira infância (2008), Manoel de Barros (Cuiabá, MT, Brésil, 1916) apporte à l’écriture de mémoires des aspects formaux inhabituels, et présente aussi une faune sui generis, composée par des milles-pates, des limaces, des crapauds, parmi d’autres bêtes, qui habituellement s’échappent aux évaluations positives d’un point de vue esthétique. À l’exception des oiseaux, refractaires au modèle d’appréciation envers les autres animaux cités. Cette étude vise, tout d’abord, la mise en évidence de la poésie de l’écrivain en tant qu’espace d’inclusion de ce qui est pris souvent comme répulsif, en mettant en lumière le sens de métamorphose de l’art, comme domaine de l’autreté; deuxièmement, il nous intéresse d’observer comme la figure de l’animal, sur sa performance dans le monde naturel, fonctionne comme support pour la diction métanarrative qui pénètre tout le récit, ce qui s’avère alors primordial, une fois que les Memórias se situent dans la sphère de la poiesis.

Mots-clés: animal; enfance; mémoire.


Palavras-chave


animal; infância; memória; enfance; mémoire.

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Referências


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DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2317-2096.21.3.131-137

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