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Benjamin e Baudelaire: legados e limites de uma leitura incontornável

 

Os ensaios e anotações que Walter Benjamin dedicou a Baudelaire representaram um verdadeiro divisor de águas na compreensão da obra do poeta francês e, consequentemente, da tradição da lírica moderna. A despeito de sua recepção bastante tardia na França, os escritos sobre Baudelaire contribuíram para relativizar, em boa parte do mundo, a visão predominantemente estetizante que se tinha de sua poética no início do século XX como predecessora da linhagem dita autonomista da poesia moderna, que teria se consolidado, segundo alguns críticos, nas obras de Mallarmé e Valéry. A leitura de Benjamin também contribuiu para a afirmação de um Baudelaire politicamente interessado, por vezes “revolucionário”, em oposição à leitura conservadora e teológica, devedora do pensamento de Joseph de Maistre, que também gozou de grande prestígio nos primeiros anos da recepção crítica do autor de Les Fleurs du mal. Mais recentemente, contudo, essa dimensão “ideológica” da leitura benjaminiana tem sido sistematicamente questionada, em especial na França, por críticos que procuram destacar a “irredutibilidade” (termo igualmente evocado por Georges Blin e Antoine Compagnon, ironicamente a partir de uma afirmação do próprio Benjamin) do poeta a preceitos e definições de cunho político-histórico. Entre esses críticos, destaca-se o nome de Antoine Campagnon, para quem a leitura benjaminiana é inseparável de uma visada política e esteticamente vanguardista, portanto datada, que, ao enxergar nos poemas em verso e em prosa de Baudelaire “alegorias diversas das  lutas de classe”, teria contribuído para uma tradição de leituras “ideológicas” de um poeta que jamais teria se prestado, entretanto, a qualquer tipo de adesão clara no terreno político. Cento e cinquenta anos depois da morte do poeta, o debate envolvendo a exegese benjaminiana e os esforços revisionistas de parte da crítica francesa contemporânea só reafirmam, acima de tudo, o caráter incontornável da contribuição de Walter Benjamin para a compreensão da obra de Baudelaire e do fenômeno poético moderno. Seria, portanto, o caso de reavaliar as consequências críticas, teóricas, históricas e filosóficas da leitura que Benjamin propôs de Baudelaire, seu lugar no âmbito geral do pensamento benjaminiano, seus impactos sobre as diversas narrativas da modernidade poética, sobre a compreensão das relações entre poesia e sociedade, entre arte e mercadoria. Do ponto de vista mais restrito dos estudos baudelairianos, o momento nos convida sobretudo a reavaliar a batalha hermenêutica instaurada em torno de Baudelaire, o legado da crítica benjaminiana, retrabalhado – e não sem uma perspectiva ela também política – por críticos importantes como Dolf Oehler, Giorgio Agamben e André Hirt, e as ressalvas contemporâneas feitas contra ele. Este número dos Cadernos Benjaminianos espera receber contribuições que abordem as mais diversas facetas desse legado, que vão da análise de conceitos e temas benjaminianos ligados de alguma forma à figura de Baudelaire (“aura”, “modernidade”, “alegoria”, “choque”, “tradução” etc.), passando por leituras e releituras do poeta ligadas ao pensamento do filósofo alemão, até a revisão crítica contemporânea da interpretação proposta por Walter Benjamin. Esperamos receber também trabalhos focados em questões mais amplas relacionadas ao panorama moderno que articulem temas benjaminianos e baudelairianos.

 

Prazo: 30/10/2017