CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO - Urbanismo e Guerra

CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO

Cadernos Benjaminianos – 2017. 2

FaLe-UFMG

 

Org.

Prof. Dr. Frederico Canuto (Escola de Arquitetura – UFMG)

Prof. Dr. Fernando Resende (Instituto de Arte e Comunicação Social – UFF)

 

Data-limite: 30/10/2017

 

 

Urbanismo e guerra

 

No texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, Walter Benjamin discute o impacto das novas formas reprodutíveis de arte, a saber, a fotografia, o cinema e seus desdobramentos: na percepção massificada que a envolve e na produção de outras subjetividades, inclusive relacionando-as com formas de arte críticas e politicamente engajadas. Numa discussão que passa pela Política e pela Estética, mais ao final do texto, o pensador alemão elabora um argumento central para o nosso presente histórico, relacionando a produção de imagens para as massas como movimentos de precarização do proletariado e de surgimento do Fascismo – pois que essas imagens dão vazão ao desejo de mudança (ruptura violenta) ao mesmo tempo em que conservam as relações sociais e o universo dos afetos desiguais como antes, inalterados no essencial. Assim, a Segunda Grande Guerra que se preparava (e talvez as crises que hoje assistimos) acabam sendo, a partir do seu ponto de vista, o ápice de uma estetização que aponta para uma mudança que não muda nada, mas é capaz de levar à destruição: "Todos os esforços para estetizar a política convergem para um ponto. Esse ponto é a guerra." (BENJAMIN, 1985A, p.195). No campo ampliado da produção de imagens e afetos públicos dessa natureza, a cidade e seus modos de vida não passam incólumes. As imagens produzem, apontam e têm responsabilidade na criação de lugares e espaços habitáveis, socialmente vividos. O urbanismo enquanto ciência que serve para compreender o fenômeno urbano e para atuar sobre o mesmo, torna-se propagador dessas imagens tanto no imaginário literário, cinematográfico, midiático, entre outros, como no próprio espaço cotidiano em que se vive. Acontece que a guerra (ainda numa perspectiva benjaminiana e crítica), e seu urbanismo correlato, podem ser também um movimento de diferença. Se compreendermos a guerra e suas relações com a política a partir de uma visão cosmopolítica diversa como a das sociedades ameríndias (tal como a etnografia a vai descrever), impressiona a observação do antropólogo francês Pierre Clastres: – a guerra como fato estrutural das sociedades não-Ocidentais. Tal proposição serve como mecanismo de garantia da ideia de totalidade e singularidade de si, o que acirra não o absoluto de uma identidade, mas sim uma diferença. Assim, as sociedades ameríndias são sociedades não-estáveis e em constante movimento de diferenciação interna e alargamento de si. A guerra, nesse sentido, longe de ser apenas destruição e morte, serve para manter comunidades, ao mesmo tempo em que produz outras famílias e etnias, criando inclusive outros afetos, espaços e rituais. Em outras palavras, contra a guerra que se implanta como estetização da política em prol da manutenção da ordem do mundo, há também, para a contemporaneidade, uma guerra que envolve a política e a estética, relação esta que aponta para linhas de fuga e produz outros espaços discursivos e de pensamento. Irit Rogoff (2000), nesse sentido, também nos ajuda a pensar nos desdobramentos políticos e estéticos que uma guerra produz. Ao discutir o problema a partir da nossa experiência atual com os chamados “conflitos de longa duração”, a autora propõe que busquemos pensar pelo viés de uma “geografia exaurida”. Esta seria exatamente o espaço que, segundo a autora, diante da insuficiência de instrumentos analíticos e conceituais que nos ajudem a operacionalizar os problemas que nos atravessam, nos impõe como desafio inventar novos modos de ver e entender os afetos que são mobilizados e que circulam nos territórios que compartilhamos todos. A partir, portanto, desse conjunto amplo de questões, a presente chamada dos Cadernos Benjaminianos está aberta para receber contribuições – sempre partindo da interdisciplinaridade fundamental desse campo de trabalho (Letras, História, Filosofia, Arquitetura e Urbanismo, Comunicação, Ciências Sociais) – acerca da relação entre imagens, discursos, espaços e a guerra; pesquisas e reflexões que abordem a dimensão da luta e do conflito no que diz respeito a memórias, aos escombros, às ruínas, à destruição, à violência, às ocupações e formas de resistências do e no espaço, além de estudos Literários e Culturais que permitam discutir algumas dessas questões, refratando-as e deslocando-as. Esta edição do periódico pretende, assim, coletar gestos que procuram, a partir da desmontagem da guerra e do terror atuais, propor outras formas de vida e de habitação, de política e de sensibilidades, partindo sempre, é preciso lembrar, de uma relação com o espaço e a cidade, coração do Capital e sede possível dos questionamentos e das transformações.