CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO - Poesia e catástrofe

Vol. 15 – 2019.2

Data-limite: 30/09/2019

 

DOSSIÊ – POESIA E CATÁSTROFE

Editores-convidados:

Prof. Dr. Luiz Guilherme Barbosa – Colégio Pedro II

Prof. Dr. Rafael Zacca – UFRJ

 

Nos anos 1930, Walter Benjamin esteve implicado em desarticular a armadura conceitual da modernidade calcada no conceito de progresso. Para isso, investigou a sua figuração no século XIX, enquanto tomava notas para a elaboração do trabalho das Passagens. Apressada em levar a cabo o projeto de “evolução” da sociedade rumo à felicidade a ser atingida pelo desenvolvimento técnico e pelo domínio da natureza, grande parte da humanidade europeia daquele século acreditava que se aproximava uma época de suprema civilização em oposição à situação de barbárie em que “ainda” se via. As máquinas, as grandes cidades e a divisão do trabalho engordariam a riqueza das nações. Nem Marx teria escapado do conceito, vendo na luta de classes o lugar de realização do progresso rumo à sociedade sem classes.

 

Muitas imagens da catástrofe, no entanto, se acumularam na poesia desde o advento da modernidade capitalista. Charles Baudelaire, no século XIX, comparou as demolições constantes da moderna, e sempre em reforma, Paris ao coração inconstante dos mortais. No século XX, os expressionistas alemães viam a ruína do próprio corpo humano no auge da Primeira Guerra Mundial, como Gottfried Benn, que compôs versos à imagem dos que apodreciam no campo de batalha ou nas salas de dissecação. Também se ocuparam da desgraça e da mutilação humana na guerra Murilo Mendes (“A aurora desce a viseira”), Carlos Drummond de Andrade (“Nosso tempo”) ou Oswald de Andrade (Cântico dos cânticos para flauta e violão). Por outro lado, a catástrofe também se faz ver em poetas que não cantam a guerra ou a cidade, mas a catástrofe em outra proporção, como nas salas de hospital com Sylvia Plath (“Two views of a cadaver room”) ou no manicômio com Stela do Patrocínio (nas falas reunidas em Reino dos bichos e dos animais).

 

A esse propósito, Benjamin escreveu, em 1940, nos seus fragmentos Sobre o conceito de história,que a história do progresso é a história da catástrofe. É também este o sentido da sentença que declara que todo monumento da cultura é também monumento da barbárie. Ao confiar na técnica como domínio da natureza e de outros seres humanos, o conceito de progresso é o conceito de catástrofe. No famoso fragmento sobre o anjo da história, em que Benjamin alegoriza um quadro de Paul Klee, o filósofo propõe que a própria história da humanidade é aquela do acúmulo das catástrofes.

 

O rompimento de barragens, a morte de ecossistemas pela ação humana, as abordagens policiais e militares que executam corpos matáveis aos olhos da ideologia dominante e o extermínio de povos originários são alguns dos fenômenos que parecem comprovar, no cenário brasileiro do presente, a tese de Benjamin. De que maneira a poesia se colocou e segue se colocando diante das catástrofes? O que pode a poesia? Mostrar, interromper, denunciar? É impotente? A sua impotência pode alguma coisa? Pode a poesia, por outro lado, continuar a catástrofe? Essas são algumas das questões com que procuramos provocar todos os pesquisadores interessados em pensar as possibilidades do encontro entre Poesia e Catástrofe neste dossiê dos Cadernos Benjaminianos, que acolherá artigos, resenhas e traduções para o seu próximo número.