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Entre o vírus e os vermes, a literatura

 

Painel retirado da série "What Happened to US?", de Dan Perjovschi.

 

2020. O ritmo da vida humana parece a cada dia mais frenético: produção industrial em larga escala global; transmissão de mercadorias, informações e pessoas com uma velocidade jamais imaginada; espaços ocupados por imensas aglomerações humanas continuamente interconectadas. Pessoas, especialmente nas grandes cidades, já não parecem se dar conta do tempo que passa nas passagens do espaço. Mas... “No meio do caminho tinha uma pedra”.

2020. Este mesmo mundo, assolado por um vírus destrutivo e altamente contagioso, vê-se obrigado a instalar restrições rigorosas a fim de retardar seu contágio e resguardar o máximo possível a saúde pública. O imperativo ético é evidente. Os grandes detentores do capital multinacional, contudo, fazem pressão para que os governos privilegiem a economia e abram mão de vidas consideradas “dispensáveis”: o excedente, composto em larga medida por pessoas pobres, velhas e doentes. Os “improdutivos”, relegados às margens de uma sociedade que só parece conhecer o imperativo da produtividade e do acúmulo de capital.

2020. A crise está aí. Entre o vírus e os vermes, a literatura surge como uma instituição capaz de oferecer o espaço e o tempo necessários à reflexão crítica: que critérios têm guiado nossas escolhas e nos levado a viver de forma tão frenética e sufocada? Com que objetivos seguimos tão convictamente no rumo do que parece ser a nossa própria aniquilação? Como criar ferramentas, em tempos de isolamento, para propor soluções coletivas diante de uma crise que se mostra, sobretudo, social?  Em um cenário no qual o futuro que nos era planejado parece estar em falta, a literatura se encarrega de nos trazer as notícias de outros mundos possíveis, alimentando nossas perspectivas desgastadas com caminhos outros para a ação e para o pensamento. Nós da revista Em Tese, sensibilizados pela situação atual de profunda desesperança e agudo desespero em todo o mundo, convidamos as pessoas dedicadas ao estudo da literatura e outras artes a refletirem, a partir de obras tematizando situações de pandemia, epidemia e peste, sobre os mais diversos aspectos desses fenômenos: a situação de crise generalizada, as alternativas no combate à disseminação da doença, os reflexos dessa situação sobre a sociedade e a cultura, etc. Muitos intelectuais importantes para os Estudos Literários têm proposto considerações sobre o momento atual, como Giorgio Agamben, Jean-Luc Nancy, Judith Butler, Paul B. Preciado e François Hartog, mas a verdade é que as relações entre a literatura e a peste são antigas: da Ilíada de Homero até Peste e cólera de Patrick Deville, passando por Édipo Rei de Sófocles, História da Guerra do Peloponeso de Tucídides, Da natureza das coisas de Lucrécio, as Geórgicas de Virgílio, o Decamerão de Giovanni Boccaccio, Morte em Veneza de Thomas Mann, A peste de Albert Camus, O amor nos tempos do cólera de Gabriel García Marques, Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, inúmeras são as obras que retratam situações de aguda pandemia e refletem criticamente sobre seus mais diversos efeitos. A fim de explorar e expandir esse rico repertório literário, contamos com contribuições inéditas na área dos estudos literários e em outras afins.

Vale lembrar que as seções Ensino de Literatura; Teoria, Crítica Literária e Outras Artes e Mídias; Tradução e Edição; Resenhas; e Em Tese recebem submissões em fluxo contínuo sobre temas que não necessitam estar relacionados ao tópico do dossiê.

Prazo: até 31 de agosto de 2020.

 
Publicado: 2020-04-23
 
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