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A(s) cidade(s) na literatura brasileira

 
 
Escultura de Jaider Esbell instalada em 2020 no Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte (MG), durantre o Circuito Urbano de Arte (CURA). Foto de Lucas Bahia.
 
 
A pandemia da covid-19 ressaltou problemas sociais que dificultam, sobretudo para a população mais pobre, a vida nas cidades brasileiras. Realçou que estas foram e são produzidas segundo concepções e práticas hierarquizadas e segregadoras, hostis a grupos humanos – e não humanos – mais vulneráveis. Salientou a necessidade e a urgência de nossas cidades serem repensadas e reconstruídas. “A formação do Brasil urbano se deu a partir da exclusão da população pobre, grande parte dela integrada por negros”, assinala o urbanista e professor Roberto Andrés, em artigo da revista Piauí. A literatura brasileira, em suas diversas manifestações, tem interpelado e reinventado a (de)formação da(s) cidade(s), como registram Flora Sussekind, Sandra Regina Goulart Almeida, Renato Cordeiro Gomes, Robert Moses Pechman e outras/os pesquisadoras/es. A relação entre literatura e espaço(s) urbano(s) vem sendo estudada a partir de várias propostas teóricas e críticas. Uma das vertentes mais comuns é a que se dedica ao tema da representação do espaço urbano no texto literário. Nesse tipo de abordagem, é frequente que a cidade e, mais amplamente, o espaço sejam entendidos como demarcações extratextuais transportadas, de algum modo, para o material escrito, como observa o professor Luis Alberto Brandão. Por outro lado, a perspectiva representacional é problematizada por enfoques voltados para maneiras pelas quais a criação literária pode explorar, desestabilizar, transgredir, propor, compor “cidade” – termo este que pode ganhar sentidos inusuais. Tais enfoques podem se basear em autores e obras não necessariamente vinculados aos estudos literários. Dentre uma imensidão de exemplos possíveis, citamos: o tratamento dado por Michel Foucault às noções de utopia e heterotopia, também examinadas e animadas por Henri Lefebvre; as provocações de Deleuze e Guattari acerca da potência da literatura como operadora de “estranhas viagens numa cidade”; e os “desvios” que autores indígenas (Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Daniel Munduruku...) corporificam e sugerem em/sobre/para/contra nossas cidades.
 
Em certa obra literária, quais elementos permitem reconhecer determinada cidade “real” ou, ao contrário, tensionam ou rejeitam alguma “reconhecibilidade”? Em certo texto, está em jogo a própria noção do que seja a/uma cidade? Como, ao explorar a cidade, a escrita também se explora a si mesma, suas próprias convenções e potencialidades? A investigação crítica pode se beneficiar do recurso a pares opositivos tradicionais, como exterior/interior, objetivo/subjetivo, concreto/abstrato, social/psicológico, fora/dentro, centro/periferia etc.? O presente dossiê da Em Tese tenciona receber trabalhos que examinem essas e/ou outras questões relacionadas a como cidades e a cidade foram e são configuradas na literatura brasileira.
 
Prazo para submissões: 21/02/2021
 
Vale lembrar que as seções Ensino de Literatura; Teoria, Crítica Literária e Outras Artes e Mídias; Tradução e Edição; Resenhas; e Em Tese recebem submissões em fluxo contínuo sobre temas que não necessitam estar relacionados ao tópico do dossiê.
 
Publicado: 2020-12-16
 
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