Alternância de transitividade com verbos agentivos em PB: a louça já lavou, a casa já vendeu, o caminhão já carregou

Luana Lopes Amaral, Márcia Cançado

Abstract


Este artigo analisa sentenças intransitivas do tipo a louça já lavou/ a casa já vendeu/ o caminhão já carregou, chamadas de “incoativas periféricas”, no português brasileiro. Em comparação dessas estruturas com sentenças incoativas canônicas, do tipo os vidros quebraram/ a porta estragou/ a meia rasgou, resultantes da alternância causativo-incoativa, este estudo mostra que os dois tipos de sentenças intransitivas, embora sintaticamente similares, resultam de diferentes processos de alternância verbal. Ainda, em uma análise dos verbos do português brasileiro que formam incoativas periféricas, o artigo constata que existem quatro tipos de restrição para que os verbos possam alternar. Os verbos devem ser agentivos e transitivos diretos, o contexto sentencial deve incluir elementos como modificadores, negação ou uma prosódia de pergunta e a sentença deve incluir argumentos específicos. Os verbos devem, ainda, ser capazes de, no contexto apropriado, gerar as implicaturas de que a ação está sendo realizada por um agente ou por um instrumento distinto do próprio falante e de que o falante não presencia a ação, mas conhece o resultado esperado e faz alguma constatação sobre esse resultado. O estudo constata, ainda, que as sentenças intransitivas analisadas focalizam o resultado da ação lexicalizado no verbo (no caso de verbos de resultado como vender e carregar) e geram uma implicatura de resultado, também focalizada, no caso de verbos que não lexicalizam o resultado (como lavar).


Keywords


alternância verbal; incoativa; verbos agentivos.

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DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2237-2083.25.4.1871-1904

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